O sermão de padre Pinto

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Por Albano Amorim

Jornalista Albano Amorim
Jornalista Albano Amorim

Foi numa destas missas celebradas de madrugada no cemitério da cidade, onde eu participei muito mais por dever de ofício que pelo apelo dever cristão de homem temente a Deus. Mas foi naquela oportunidade que pude ouvir com a maior simplicidade e da maneira mais pedagógica possível a explicação de como é o Paraíso e como devemos fazer para alcançá-lo e poder “curtir” a vida eterna.

Padre Pinto veio de Batalha, cidade vizinha, para celebrar em Esperantina. Naquelas “Santas Missões”, onde muitos padres e religiosos ficavam por uma semana na nossa cidade,e, já se sabe, quanto mais padres, mais missa, portanto, mais serviço para quem tinha a obrigação de tocar o sino e acompanhar a procissão.

Eu tinha todas as justificativas para dormir durante o sermão, mas uma missa num cemitério, vamos combinar, não é um local muito tranquilo pra quem está vivo e ainda mais quando o padre começa a falar sobre o que acontece depois da morte. E perguntou o sacerdote: “Todos nós aqui, buscamos um dia sermos dignos da vida eterna, da salvação da alma, mas como saber se o que estamos fazendo é o suficiente? E como é mesmo o céu? Alguém aqui já viu ou consegue imaginar como seria o Paraíso?”.

Claro que ninguém respondeu, os que supostamente conheciam não falaram, então ele continuou a homilia… “pois bem, eu também não sei, nunca fui lá, mas ouvia minha mãe dizer que todas as pessoas podem ter a graça de ir para o céu porque todos nós podemos construir, com nossas ações, a própria estrada para alcançar a vida eterna”. E ele contou que dois homens morreram no mesmo dia e foram levados para o céu e que chegando lá, foram recebidos por São Pedro que lhes deu as boas vindas e chamou um anjo que os conduziria até seus aposentos, o lugar onde iriam desfrutar os próximos anos da eternidade.

Depois de uma longa caminhada alcançaram a primeira morada. Uma casa tão bonita quanto as flores e a relva que cresciam ao seu redor. Alpendres longos, grama aparada e, da calçada da varanda, dava pra ver o sol nascer atrás da colina e sua luz refletia na água corrente do lago que cortava a estradinha ligada por uma ponte até o terreiro da casa. Foi nesta morada que o anjo deixou o primeiro homem e convidou o segundo a seguir em frente.

Caminharam por mais algumas horas e a paisagem já não era mais a mesma. As colinas verdejantes davam lugar a um pântano com lamas escuras, onde se precisava pisar com cuidado, pois havia espinhos e a capa-rosa dava pra cobrir os pés. Até que ao longe, mais à dentro do pântano, dava pra se avistar um casebre de palha, com teto ralo e sem paredes. Se se apurasse a vista, dava pra notar que suas forquilhas eram finas, mal seguravam uma rede armada. Do mesmo modo, como bom anfitrião, o anjo disse ao segundo homem que aquela era a morada reservada.

Achando ruim, o homem retrucou e perguntou por que o primeiro hóspede havia ficado numa casa tão boa, num local tão bonito e ele haveria de morar ali? Como passaria a vida eterna numa casa que mal lhe protegeria da chuva? E o anjo então lhe explicou que as boas ações e atitudes que realizamos em vida, servem como materiais para construir a nossa morada no céu e que aquele foi todo o material que foi possível colher. E continuou dizendo que não havia nada de complicado. Das boas ações que o homem havia realizado foram deduzidas as maldades por ele cometidas e tudo o que sobrou só deu pra fazer aquele casebre.

Faz alguns anos que ouvi o sermão de Padre Pinto, mas continua atual, e que sirva como fonte para reflexão sobre nossas atitudes, sobre o dever de cada um de nós para com os outros, com a sociedade, com o futuro do Planeta e aí, quem sabe, no final das contas terminaremos com saldo positivo para construir nossa morada no mesmo lugar onde moram os de consciência tranquila. E ainda que pareça impossível,vale o que disse Carlos Drumont – ” Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente.”

Feliz Ano Novo, renovado em tudo.

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